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Nascer
homem neste mundo é uma coisa interessante. Podem dizer um monte de coisas
sobre a mulher, sobre a necessidade da mulher ter mais espaço, mais voz,
mais vez, que os homens ganham mais, que tem isso, que tem aquilo. Deixemos
a guerra dos sexos pra lá, pelo menos por agora. Nascer homem em certas
culturas é, de fato, uma garantia de espaço mas, cá entre nós, como tudo
nessa vida, cada espaço tem seu preço, e olha que o preço é alto.
Nascemos e já
recebemos, de forma totalmente inconsciente, o encargo de personificar os
sonhos de um pai que quer que sejamos tudo aquilo que ele não foi. E se ele
já foi alguma coisa digna de nota... pior ainda. Temos que ser mais. Filho
de peixe tem que ser peixe. Por mais que não gostemos de água.
Mal nos conhecemos por gente, lá estamos nós na escola,
naquelas festinhas e apresentações torturantes, e lá numa das filas está
sentado o nosso pai, inchado feito um sapo-boi de tanto orgulho de seu
garoto. Aí de nós se aprontarmos alguma. Ai se não marcarmos aquele gol.
Seguimos adiante e o velho pai, já provavelmente barrigudo e
grisalho, segue nos dando força, apoio, sustento, e... algumas sugestões.
Que tal fazer isso, que tal fazer assim, etc, etc. Mudam os temas, mas
permanece a cobrança. E ao coro dos ancestrais soma-se o coro dos amigos. Ai
de nós se arranjamos uma namorada que não é aquilo que os outros pensam. Ai
de nós se, apesar de termos sobrevivido àquelas aulas de música que nossos
pais nos obrigaram a suportar, um dia resolvermos seguir carreira em música.
Segue o trem da vida, e embarcados nele nos vemos certo dia
formados. Dr. Sei-lá-o-que passa a ser o nosso nome. Antes não passávamos de
meros moleques. Agora, o velho canudo nos dá o direito à opinião, emprego e
salário. Mas que seja um bom salário, ora, ora. Não vai dar pra enfrentar a
turma toda com aquele carro velho. Não vai dar pra explicar pros amigos
porque ainda moramos em apartamento alugado. E, pensando bem, este bairro
aqui anda mal freqüentado, não é querida?
Mal nos damos conta, e estamos na ciranda do poder. Querendo
ter para parecer que somos mais do que talvez sejamos. Poder rima com ter.
Quanto mais se pode ter, mais os outros podem ver. Pena que não damos
ouvidos aos poetas. Eles nos diriam que poder, ter, etc, são todas rimas
pobres. Pobres como nós, os coitados que em algum dia sonhamos em ter, ter,
ter, e esquecemos de ser. Vivemos anos colecionando troféus, lutando para
adicionar penas mais nobres aos nossos rabos de pavão.
Até que um dia a casa cai. O emprego já era. A
empregabilidade não é mais a mesma, embora a contabilidade nos lembre que os
gastos estão aí pra ficar e crescer, e por um bom tempo. Os filhos começam a
nos achar um tanto jurássicos. E aí começamos a colecionar novos amigos.
Chamamos os bem-sucedidos de esnobes. Dizemos que os atores que nossas
mulheres assistem, embora mais velhos que nós, mas assustadoramente mais
conservados, devem ser é efeminados. E começamos a nos confortar por não
estarmos tão ferrados como “aqueles” outros piores que nós. Pavões ainda se
orgulhando das poucas penas coloridas que lhes sobram na cauda.
Somos treinados para subirmos a ladeira, para crescer, para
crescer, para crescer. Nunca para descer, nunca para experimentar o gosto da
cara no chão.
Mas tudo o que sobe um dia desce. E a descida cobra seu
preço. A sociedade, a nossa roda de amigos, os pavões que vivem a contar
suas poucas e falíveis penas.
E na hora da descida, o que nos resta? Atender aos conselhos
dos demais pavões e assumir que andamos mesmo estressados? Que procurar um
analista ou um terapeuta talvez não seja tão mal assim? Que tomar alguns
remedinhos é uma necessidade nos dias de hoje?
Francamente, tenho vivido recentemente a dura experiência que
descreví até agora. E tenho sofrido as dores da descida. Rapaz... como
dói...
Mas um certo dia, estava eu em um dos raros dias que saio de
casa, a pé, para fazer algum exercício físico. Estava dando uma volta pelo
lago que existe próximo de onde moro.
Saí e fui andando. E comecei a “debater com Deus” os porquês
da ladeira em que eu estava. E perguntava. E perguntava... Por que? Por que
assim comigo? Onde errei? Que foi que eu fiz? Você deve saber do que eu
estou falando... ou pelo menos um dia saberá.
Mas o mais rico momento foi quando a voz dele me foi
mostrando, nos ricos momentos, de um caminho melhor do que procurar
analistas, tomar os remedinhos para cortar nossa ansiedade ou depressão,
etc, etc.
Foi me lembrando de muitas coisas que Ele tinha me dado na
vida. No porquê delas, também. E foi me mostrando que, como não havia me
faltado antes, não me faltaria jamais. E tudo o que eu vinha vivendo estava
no controle dele, e acima de tudo, nos planos dele.
Encurtando uma longa história, registrei o resultado da
experiência em uma letra de música, que acabei gravando mais tarde. É assim:
quando a glória de um homem se vai.
quando a dor bate forte e ele cai
quando o céu perde a cor
quando bate o pavor
pobre homem, não sabe onde vai
quando a glória de um homem se vai
quando falha o seu braço e ele cai
há um caminho na dor
mesmo um dia sem cor
traz consigo a presença do Pai
quando a noite não quer terminar
e a angústia nos leva a gritar
se a esperança se vai
e o semblante então cai
há espaço pra glória do Pai
seja no pouco ou na sobra de pão
vendo o futuro ou na perda do chão
força de fato é a que vem do Senhor
quando o rosto se encontra com o chão
e o silêncio só traz mais tensão
se o desejo é parar, o melhor é buscar
a presença, a glória do Pai
quando a graça que basta reinar
e o olho do fraco enxergar
que Deus forte lhe faz
sua firmeza lhe traz
e se mostra a glória do Pai
é o bom combate, é a carreira da fé
certo o futuro, ao lado do Pai
glória de fato é a que há no Senhor
quando a glória de um homem se vai
quando
falha o seu braço e ele cai
se a esperança se vai
se o semblante então cai
há espaço pra glória do Pai
Hoje, quando termino de escrever este artigo, fazem mais ou
menos dois anos que esta música saiu. E fazem aproximadamente 30 dias que o
CD que contém a música está na praça. Ontem recebí um e-mail de alguém que
eu não conheço, mas que comprou o CD e declara que está ouvindo, ouvindo,
ouvindo esta música, por estar vivendo a crise da descida. Semana passada eu
já havia recebido um outro mail parecido. É gostoso ver como Deus faz as
coisas. É gostoso ver como a coisa nasceu, de onde ela saiu, e onde Ele a
faz chegar.
Deus tirou e ainda anda tirando as penas deste pavão, de
forma que eu seja cada vez mais como Ele quer, e não como eu quero.
Mas, como é bom ver que, na verdade, o bom mesmo é que a
glória Dele pode ser refletida em mim!
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