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É uma revista virtual cristã, para a qual escrevo, e que dirijo. Será um prazer te-lo como visitante e assinante (é gratuita) 

 
 

   

 

 

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  Quando a glória de um homem se vai
(texto escrito para a revista Voice)
 

Até que um dia a casa cai. O emprego já era. A empregabilidade não é mais a mesma, embora a contabilidade nos lembre que os gastos estão aí pra ficar e crescer, e por um bom tempo. Os filhos começam a nos achar um tanto jurássicos. E aí começamos a colecionar novos amigos. Chamamos os bem-sucedidos de esnobes. Dizemos que os atores que nossas mulheres assistem, embora mais velhos que nós, mas assustadoramente mais conservados, devem ser é efeminados. E começamos a nos confortar por não estarmos tão ferrados como “aqueles” outros piores que nós.  Pavões ainda se orgulhando das poucas penas coloridas que lhes sobram na cauda.

 
 
 
 
Nascer homem neste mundo é uma coisa interessante. Podem dizer um monte de coisas sobre a mulher, sobre a necessidade da mulher ter mais espaço, mais voz, mais vez, que os homens ganham mais, que tem isso, que tem aquilo. Deixemos a guerra dos sexos pra lá, pelo menos por agora. Nascer homem em certas culturas é, de fato, uma garantia de espaço mas, cá entre nós, como tudo nessa vida, cada espaço tem seu preço, e olha que o preço é alto.

Nascemos e já recebemos, de forma totalmente inconsciente, o encargo de personificar os sonhos de um pai que quer que sejamos tudo aquilo que ele não foi. E se ele já foi alguma coisa digna de nota... pior ainda. Temos que ser mais. Filho de peixe tem que ser peixe. Por mais que não gostemos de água.

Mal nos conhecemos por gente, lá estamos nós na escola, naquelas festinhas e apresentações torturantes, e lá numa das filas está sentado o nosso pai, inchado feito um sapo-boi de tanto orgulho de seu garoto. Aí de nós se aprontarmos alguma. Ai se não marcarmos aquele gol.

Seguimos adiante e o velho pai, já provavelmente barrigudo e grisalho, segue nos dando força, apoio, sustento, e... algumas sugestões. Que tal fazer isso, que tal fazer assim, etc, etc. Mudam os temas, mas permanece a cobrança. E ao coro dos ancestrais soma-se o coro dos amigos. Ai de nós se arranjamos uma namorada que não é aquilo que os outros pensam. Ai de nós se, apesar de termos sobrevivido àquelas aulas de música que nossos pais nos obrigaram a suportar, um dia resolvermos seguir carreira em música.

Segue o trem da vida, e embarcados nele nos vemos certo dia formados. Dr. Sei-lá-o-que passa a ser o nosso nome. Antes não passávamos de meros moleques. Agora, o velho canudo nos dá o direito à opinião, emprego e salário. Mas que seja um bom salário, ora, ora. Não vai dar pra enfrentar a turma toda com aquele carro velho. Não vai dar pra explicar pros amigos porque ainda moramos em apartamento alugado. E, pensando bem, este bairro aqui anda mal freqüentado, não é querida?

Mal nos damos conta, e estamos na ciranda do poder. Querendo ter para parecer que somos mais do que talvez sejamos. Poder rima com ter. Quanto mais se pode ter, mais os outros podem ver. Pena que não damos ouvidos aos poetas. Eles nos diriam que poder, ter, etc, são todas rimas pobres. Pobres como nós, os coitados que em algum dia sonhamos em ter, ter, ter, e esquecemos de ser. Vivemos anos colecionando troféus, lutando para adicionar penas mais nobres aos nossos rabos de pavão.

Até que um dia a casa cai. O emprego já era. A empregabilidade não é mais a mesma, embora a contabilidade nos lembre que os gastos estão aí pra ficar e crescer, e por um bom tempo. Os filhos começam a nos achar um tanto jurássicos. E aí começamos a colecionar novos amigos. Chamamos os bem-sucedidos de esnobes. Dizemos que os atores que nossas mulheres assistem, embora mais velhos que nós, mas assustadoramente mais conservados, devem ser é efeminados. E começamos a nos confortar por não estarmos tão ferrados como “aqueles” outros piores que nós.  Pavões ainda se orgulhando das poucas penas coloridas que lhes sobram na cauda.

Somos treinados para subirmos a ladeira, para crescer, para crescer, para crescer. Nunca para descer, nunca para experimentar o gosto da cara no chão.

Mas tudo o que sobe um dia desce. E a descida cobra seu preço. A sociedade, a nossa roda de amigos, os pavões que vivem a contar suas poucas e falíveis penas.

E na hora da descida, o que nos resta? Atender aos conselhos dos demais pavões e assumir que andamos mesmo estressados? Que procurar um analista ou um terapeuta talvez não seja tão mal assim? Que tomar alguns remedinhos é uma necessidade nos dias de hoje?

Francamente, tenho vivido recentemente a dura experiência que descreví até agora. E tenho sofrido as dores da descida. Rapaz... como dói...

Mas um certo dia, estava eu em um dos raros dias que saio de casa, a pé, para fazer algum exercício físico. Estava dando uma volta pelo lago que existe próximo de onde moro.

Saí e fui andando. E comecei a “debater com Deus” os porquês da ladeira em que eu estava. E perguntava. E perguntava... Por que? Por que assim comigo? Onde errei? Que foi que eu fiz? Você deve saber do que eu estou falando... ou pelo menos um dia saberá.

Mas o mais rico momento foi quando a voz dele me foi mostrando, nos ricos momentos, de um caminho melhor do que procurar analistas, tomar os remedinhos para cortar nossa ansiedade ou depressão, etc, etc.

Foi me lembrando de muitas coisas que Ele tinha me dado na vida. No porquê delas, também. E foi me mostrando que, como não havia me faltado antes, não me faltaria jamais. E tudo o que eu vinha vivendo estava no controle dele, e acima de tudo, nos planos dele.

Encurtando uma longa história, registrei o resultado da experiência em uma letra de música, que acabei gravando mais tarde. É assim:

quando a glória de um homem se vai.
quando a dor bate forte e ele cai
quando o céu perde a cor
quando bate o pavor
pobre homem, não sabe onde vai

quando a glória de um homem se vai
quando falha o seu braço e ele cai
há um caminho na dor
mesmo um dia sem cor
traz consigo a presença do Pai

quando a noite não quer terminar
e a angústia nos leva a gritar
se a esperança se vai
e o semblante então cai
há espaço pra glória do Pai

seja no pouco ou na sobra de pão
vendo o futuro ou na perda do chão
força de fato é a que vem do Senhor

quando o rosto se encontra com o chão
e o silêncio só traz mais tensão
se o desejo é parar, o melhor é buscar
a presença, a glória do Pai

quando a graça que basta reinar
e o olho do fraco enxergar
que Deus forte lhe faz
sua firmeza lhe traz
e se mostra a glória do Pai

é o bom combate, é a carreira da fé
certo o futuro, ao lado do Pai
glória de fato é a que há no Senhor

quando a glória de um homem se vai
quando falha o seu braço e ele cai
se a esperança se vai
se o semblante então cai
há espaço pra glória do Pai

Hoje, quando termino de escrever este artigo, fazem mais ou menos dois anos que esta música saiu. E fazem aproximadamente 30 dias que o CD que contém a música está na praça. Ontem recebí um e-mail de alguém que eu não conheço, mas que comprou o CD e declara que está ouvindo, ouvindo, ouvindo esta música, por estar vivendo a crise da descida. Semana passada eu já havia recebido um outro mail parecido. É gostoso ver como Deus faz as coisas. É gostoso ver como a coisa nasceu, de onde ela saiu, e onde Ele a faz chegar.

Deus tirou e ainda anda tirando as penas deste pavão, de forma que eu seja cada vez mais como Ele quer, e não como eu quero.

Mas, como é bom ver que, na verdade, o bom mesmo é que a glória Dele pode ser refletida em mim!