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  Vamos abrir uma igreja?
 


’São Paulo abre uma igreja a cada dois dias!
É a manchete que saiu Folha de São Paulo, no último dia 28 de janeiro (de 2006), em texto escrito por Daniela Tófoli. Mais do que ver neste texto um retrato fiel da cidade onde nascí e viví quase toda minha vida, vejo nele a triste realidade na qual estamos metidos. Veja um trecho do texto: ”
Uma igreja para punks e góticos. Uma para surdos. Outra para quem gosta de black music. Mais uma só para gays. Em São
Paulo, só não vai à igreja quem não quer.  A cada dois dias, pelo menos um novo templo é aberto na cidade, sem contar os que funcionam sem nenhuma autorização em garagens de casas
Como se chega a esta estatística de ‘uma igreja a cada dois dias’? Pelos pedidos de isenção de IPTU...
 

 
 
 
 
São Paulo abre uma igreja a cada dois dias!

É a manchete que saiu Folha de São Paulo, no último dia 28 de janeiro (de 2006), em texto escrito por Daniela Tófoli. Mais do que ver neste texto um retrato fiel da cidade onde nascí e viví quase toda minha vida, vejo nele a triste realidade na qual estamos metidos. Veja um trecho do texto:

Uma igreja para punks e góticos. Uma para surdos. Outra para quem gosta de black music. Mais uma só para gays. Em São
Paulo, só não vai à igreja quem não quer.  A cada dois dias, pelo menos um novo templo é aberto na cidade, sem contar os que funcionam sem nenhuma autorização em garagens de casas


Como se chega a esta estatística de ‘uma igreja a cada dois dias’? Pelos pedidos de isenção de IPTU (imposto predial e territorial urbano) feitos para a Prefeitura. Portanto, não estão mesmo incluídas as igrejas ‘informais’, nem mesmo as igrejas ‘oficiais’ do pessoal que não sabe que pode pedir a isenção de IPTU. Veja mais do texto:

Em 2005, de acordo com a Secretaria Municipal das Finanças, 2.675 imóveis pediram a isenção - 245 a mais do que em 2004 (é preciso renovar o pedido anualmente). Assim, se somadas as 245 novas isenções com as 41 novas plantas aprovadas, há 286 novas igrejas em um ano, uma média de 0,8 por dia. Não há, no entanto, estatísticas sobre os imóveis que já tinham isenção do imposto e que se tornaram templos nem estimativas sobre o funcionamento de igrejas sem qualquer autorização

E o texto termina fazendo uma rápida menção a opiniões de terceiros para explicar – além dos quês - os porquês do fenômeno. Leia você mesmo:

Professor de sociologia da religião na pós-graduação da PUC-SP, Edin Abumanssur diz que é muito difícil precisar o número de igrejas da cidade, até porque elas abrem e fecham constantemente. Para ele, esses templos servem para expressar a fé de alguns fiéis descontentes. "As pessoas criticam a sua religião, se frustram e abrem a sua própria igreja. Há dez anos, esse processo era mais institucionalizado, com regras muito mais rígidas." Além disso, elas podem ser bastante rentáveis, lembra.

Também da PUC-SP, o ex-padre e professor de teologia e ciências da religião, Fernando Altemeyer, concorda. "Nunca se fundou tanta igreja porque a iniciativa dá dinheiro." Por observação, ele opina que, para cada igreja católica, abrem dez evangélicas. "As regras são menos rígidas e o mercado é grande. Além disso, qualquer um pode abrir um templo, basta escolher o nome. No Brasil, pode tudo, afinal Deus é brasileiro"

E fiquei pensando...

O mercado é grande...

É, o que Jesus chamou de seara a gente agora chama de ‘mercado’. Pior: seara grande e poucos trabalhadores? Ora, só se a sua igreja for séria. O que vale agora é: mercado grande, grandes oportunidades! Muita gente interessada...

Como discordar da realidade descrita por Fernando Altemeyer, quando fala que as igrejas podem ser bastante rentáveis? E que, em particular, o ‘mercado’ evangélico é grande e tem regras menos rígidas? Não tem sido este o retrato que a maioria numérica das igrejas declaradas cristãs tem chamado para si, quando mercadejam com a fé e a boa mente de uma enorme massa de fiéis? Mesmo que para isso tenham de rasgar certas páginas de suas Bíblias... Não tem sido este o retrato que se permite ver quando certas igrejas são hoje os ‘tubarões’ do mercado imobiliário nas grandes cidades, que compram ou alugam tudo que é grande?

Descontentes...

Como discordar de Edin Abumanssur? A maior parte das igrejas que ‘brotam’ pelos bairros com suas novas e ‘exóticas’ denominações nasce mesmo é de dissensões e cisões ideológicas. E por que não dizer, para nossa tristeza, de cisões ‘societárias’? Societárias sim, pois em muitos casos conhecidos é mesmo ‘briga entre os sócios’, os donos de certa igreja que brigam e então sai cada um para o seu lado... ou melhor, cada um para sua igreja.

Mas penso que existem dois tipos de descontentes.

Os primeiros (descritos acima) são os descontentes com o ‘filão’ que lhes é oferecido. São os que estão de olho no mercado rentável que é ‘ter’ uma igreja. Líderes como estes se assemelham em tudo aos que deixam seu emprego para se tornarem pequenos empresários.

Mas existem também os ‘bons’ descontentes... Descontentes e inconformados com o que se vê e se tem nas igrejas onde atualmente congregam. Lideranças que nada fazem além de olhar para seu próprio umbigo, comunidades escravizadas a famílias que preponderam no mando e no caixa, lideranças que fazem qualquer coisa para manter seu emprego e boa posição, baixando o padrão até o ponto de negociar e amaciar conceitos bíblicos para não melindrar suas bases de apoio.

Quem faz o mercado?

Ora, já que estamos falando de ‘mercado’, a resposta vem da economia e do marketing: existe mercado quando há oferta e há procura por algum produto ou serviço. Um não vive sem o outro. Não adianta crucificar os que fazem a oferta se o lado da procura segue cada vez mais ativo.

Existe gente que procura por igrejas que falem tudo o que elas querem ouvir? Claro! Então, façamos uma igreja assim para essa gente! Igreja que fala de dízimo? Igreja que não fala de dízimo? Igreja onde pode? Igreja onde não pode? Igreja onde vale tudo? Ora, se o número de interessados é grande, por que não uma igreja para cada gosto?

Mais do que uma questão de liderança, o triste quadro revelado pelas igrejas de hoje retrata o esfriamento da fé do povo – o que deveria integrar a verdadeira igreja!

O marketing pode ser correto, mas não consigo pensar em igreja assim. Igreja, como Jesus ensinou, é um grupo de pessoas ‘selecionado’ deste mundo para representa-lo por aqui enquanto Ele não volta. Portanto, igreja não é produto, igreja não é serviço... igreja é o coletivo de salvos! Igreja não é produto ou serviço, pois sua função não é agradar nem a uns ou a outros, mas unicamente agradar o Chefe maior – Jesus, o único dono da igreja.

Em tempos de ‘personal trainer’, ‘personal isso’, ‘personal aquilo’, já que estão sendo abertas mais e mais igrejas, quanto tempo vamos ter de esperar para que nos ofereçam a ‘personal church’ (em inglês soa melhor...)? Uma igreja individual, sob medida?

É, seria cômico se não fosse trágico... Soaria até absurdo, se absurdos não fossem os tantos disparates que temos visto, e pior, cometido.

Fico feliz em pertencer á igreja verdadeira que foi fundada por Jesus e não precisa ser re-aberta. E fico feliz em pertencer a uma igreja local que representa bem, no seu quintal, no seu lugar, a amostra que é da igreja de Jesus.