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Nada
tão evangélico quanto cantar músicas americanas traduzidas. Some a falta de
autores nacionais com a mania dos poucos que existem de fazer música
complicada e o resultado é esse mesmo: o peso que músicas estrangeiras tem
no que se canta nas igrejas é alto pra valer.
Não há estatísticas oficiais ou extra-oficiais, mas apelo para a sua memória
e/ou senso de observação. Mesmo que você não seja daqueles que normalmente
nota isso, veja o percentual dos autores “estrangeiros”, seja nos hinários,
seja nos retro-projetores, seja nos data-shows.
Antes que você me tenha por nacionalista, espere um pouco. Gosto das coisas
daqui mas não sou fanático (até já expressei em outro artigo a respeito –
veja clicando aqui). E nem tampouco acho que este “fenômeno” seja
particularidade dos evangélicos brasileiros. Não é particularidade dos
evangélicos pois o percentual de música “em inglês” nas rádios “comuns”
também é cavalar, talvez até maior. E não é particularidade dos evangélicos
brasileiros pois a invasão de música em inglês em outros países é
igualzinha.
O que nos leva a isso?
a) ainda se produz pouca música local;
b) essa música é tida como “ruim” (mesmo que musicalmente não seja), pois
não atinge “o gosto” do público e
c) os gringos de fala inglesa produzem música feito pão na padaria, e bem ao
gosto do público em geral.
Mas não é sobre isso que eu quero falar. Quero falar sobre as traduções que
são feitas. Isso sim é febre de evangélico brasileiro. Principalmente fazer
da tradução uma coisa ruim que dói.
Ligue o rádio do seu carro, em uma rádio não-evangélica. Você vai ouvir um
montão de músicas em inglês. Quantas traduzidas para o português? Tirando
alguns sertanejos, muito pouca gente traduz música. A maior parte das
músicas em inglês você ouve no original mesmo, mesmo que o povo não entenda
nada. Vale o “embromation”, os “baby-baby”s, os “oh, yeah”s
da vida.
Agora ligue o rádio ou a televisão em um programa evangélico. Quantas
músicas em inglês você ouve? Uma ou duas num universo de dezenas. E boa
parte destas dezenas são traduzidas.
Como diz um amigo meu, cristão e produtor musical, “traduzir e gravar
baladas americanas é tiro certo, seguro”. O povo gosta, canta, compra o
CD e pede para o pastor convidar o “irmão tal” para vir cantar um dia na
igreja. Disso vivem alguns gringos há anos, e disso começam a viver alguns
aqui na Terra Brasilis. Gravar autores brasileiros, música brasileira?...ih...
sei não... vende pouco, sabe como é...
Ok, ok, ok. Mas qual é afinal o problema? Se o povo gosta e a música é boa,
por que não aproveitar?
Não sou contra, não. Acho bom. Até já fiz muita versão de música para o
português. Mas justamente por faze-lo, gostaria de listar alguns pontos que
tenho como guias na hora H. Todos tem de ser seguidos e considerados, caso
contrário considero que o risco de assassinar a tradução é grande. Aí vão:
”Os 10 mandamentos para evitar traduções assassinas”
1) por que você quer traduzir? A letra vale a pena?
Não estou falando de ficar “avaliando e dando nota” para a música dos
outros. Mas falo de evitar aquela onda de traduzir porque “a música é
legal”, porque “a balada é legal”, porque “o ritmo é legal”. Às vezes, muita
música “legal” tem uma letra sem grande mensagem, sem maiores predicados.
Seja como for, respeite o autor. Se você acha algo errado (ideológica ou
teologicamente), não se meta a mudar o conceito na tradução/versão. Isso é
desrespeito à propriedade intelectual, portanto é crime. Se há algo com que
não se possa concordar, prefira esquecer da música, prefira esquecer da
tradução/versão.
2) faça a versão depois da tradução
A tradução é uma etapa da versão, não o ponto final.
Vamos a um exemplo clássico – o conhecido hino “Tu és fiel”, de 1923, letra
original de Thomas Chisholm (ainda em inglês arcaico) e música de William
Runyan
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Original em inglês |
A
tradução completa, sem preocupações poéticas |
A
versão, pelo menos a que eu mais conheço |
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Great is Thy faithfulness, Oh God my Father;
There is no shadow of turning with Thee;
Thou changest not, Thy compassions, they fail not;
As Thou hast been, Thou forever will be. |
Grande é a tua fidelidade, oh Deus, meu Pai
Não há sombra de mudança contigo
Tu não mudas. As tuas compaixões, elas não falham.
Como sempre tens sido, Tu para sempre serás |
Tu
és fiel, Senhor, meu Pai celeste
Pleno poder aos Teus filhos darás
Nunca mudaste, Tu nunca faltaste
Tal como eras Tu sempre serás |
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Great is Thy faithfulness!
Great is Thy faithfulness!
Morning by morning new mercies I see.
All I have needed Thy hand hath provided;
Great is Thy faithfulness, Lord, unto me! |
Grande é a Tua fidelidade
Grande é a Tua fidelidade
Manhã após manhã, novas misericórdias eu vejo
Tudo o que eu tenho precisado Tua mão tem provido
Grande é a Tua fidelidade, Senhor, para comigo |
Tu
és fiel, Senhor
Tu és fiel, Senhor
Dia após dia com bençãos sem fim
Tua mercê me protege e me guarda
Tu és fiel, Senhor
Fiel a mim |
O
inglês, por ser um idioma foneticamente mais mono e dissilábico, permite uma
maior concentração de conceitos e idéias em muito menos fonemas. Nisso o
português perde para o inglês. Mercy (2 fonemas) vira misericórdia
(5). Mesmo a longa faithfulness tem 3 fonemas, versus 5 de
fidelidade.
Veja a tradução livre e compare com a versão. Uma não é exatamente fiel a
outra. “Grande é a Tua fidelidade” (6 sílabas fonéticas) acabou
virando “Tu és fiel, Senhor”. Mantém-se o conceito, a idéia, mas
mudam-se as palavras. Isso é versão, não somente tradução. Enfim, versão vem
depois da tradução. Versão é a “tradução” da tradução, da prosa para o
verso.
3) mais que traduzir palavras, traduza os conceitos. Adapte-os à cultura
local.
Uma das formas que os ingleses usam para dizer “coloque-se no meu lugar” é
“use o meu chapéu” (wear my hat ou take my hat). Ou então
“colocar-se nos sapatos do outro” (try to be in someone else´s shoes).
Traduza isso ao pé da letra e vão achar que você ficou louco. Há outras
expressões poéticas americanas muito ligadas à cultura local que traduzidas
de forma seca para o português não dizem nada.
4) para traduzir não basta saber inglês. É mais importante saber
português.
Há muitas traduções até que fiéis ao original, mas com erros gramaticais
sofríveis no português. Falta de concordância verbal, erros pronominais,
enfim, as barbaridades que eu e você estamos mais que acostumados a ver nos
retro-projetores por aí.
5) não invente! Nem palavras ou frases em português. E fuja de adicionar
notas a mais na melodia
Na dúvida, melhor ficar com o português que todos entendem, o que se fala
por aí.
Mas na busca de uma tradução de encaixe rápido, “draw me” andou
virando “atrai-me”. Desde quando se usa isso em português? Nós
dizemos: “Senhor, leva-me a Tua presença” ou pedimos que Ele nos
conduza no caminho Dele. Mas pedir a Deus que “nos atraia”? Isso é
inventar frases.
Outra invenção muito comum é adicionar notas a mais na melodia, só pra dar
encaixe. Gaste um pouco mais de tempo e ache outra solução.
6) letra de música é poesia. E poeta sabe fonética
Vamos a um exemplo. Perdoe-me quem fez a versão/tradução, mas francamente
creio que é um dos casos onde há maior densidade de erros de encaixe
fonético por verso, mesmo reconhecendo que a fórmula rítmica da música
original é difícil.
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A
versão, tendo as sílabas tônicas naturais em destaque |
Agora a mesma versão, só que com as tônicas que a música nos obriga a
destacar |
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Desde os confins da terra
No mais profundo mar
Nas alturas do céu
Louvado és |
Desde os confins da terra
No mais profundo mar
Nas alturas do céu
Louva-do és |
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Dentro dos corações
Em meio a um clamor
Nasce esta canção
E os povos cantam |
Dentro dos corações
Em meio a um clamor
Nasce esta canção
E os po-vos can-tam |
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Por toda a eternidade
Tu serás adorado
Grande
Deus |
Por
toda a eter-ni-da-de
Tu
serás a-do-ra-do
Gran-de Deus |
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Exaltado nas nações
Senhor da criação
Grande Deus
Seja louvado |
Exaltado nas na-çõ-ões
Senhor
da cri-a-çã-ão
Gran-de Deus
Seja louvado |
não quero dar
uma de “Flávio Cavalcante”, mas como a versão está escrita na 2ª pessoa
do singular, o correto seria “sejas louvado” e não “seja”, como foi
gravado/publicado
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Sílaba
forte tem que casar com a sílaba forte da melodia. Caso contrário dói no
ouvido. Afinal, o mar é profundo, não profundo.
Prefiro pensar que o trabalho de preparar uma versão requer mais habilidade
poética do que conhecimento idiomático. Conheço versões que foram feitas por
gente que nem inglês sabia. Simplesmente perguntavam aos outros o
significado das palavras originais e então preparavam a versão em português.
7) se Deus é o assunto, a Bíblia é o padrão. Ele definiu assim.
Não importa se disseram que a letra original foi escrita por alguém com nome
ou cara de santo, ou se foi ensinada por um pastor fervoroso. Se os
conceitos bíblicos são contrariados pela letra, esqueça dela!
E ao preparar a versão, mais do que fidelidade ao original, há que se ter em
mente a fidelidade à Bíblia.
8) tudo pronto? Faça a checagem do “discurso primário”
Chamo de discurso primário tudo aquilo que está realmente escrito. Daquilo
que pode ser entendido pelas palavras usadas.
Revise frase por frase, palavra por palavra quanto a eventuais erros de
português, erros fonéticos, erros ideológicos e erros teológicos. Se houver,
volte e corrija.
Uma prática muito boa, que sigo na maioria dos casos, é contar com a ajuda
de outros irmãos que saibam fazer o mesmo trabalho. Gente que também escreve
letra de música.
9) tudo pronto? Então faça a checagem do “discurso secundário”
Chamo de discurso secundário tudo aquilo que não está necessariamente
escrito, mas que você permite entender nas entrelinhas. Mesmo que o
entendedor esteja mal-intencionado ou não seja lá um bom entendedor.
Cabe a você evitar qualquer mensagem indireta. Se há algum risco, volte e
corrija.
10) faça um teste prático
Chame o pessoal da equipe de louvor e tente ensaiar a música com a nova
letra. Observe a sonoridade, a fonética, se a melodia destaca os conceitos
da letra. E vale o que for ouvido, não o que está escrito. A letra e a
melodia precisam, literalmente, “ser feitas uma para a outra”. Este é o
desafio do letrista.
Avalie também alguns aspectos técnicos. Veja se não há notas muito agudas em
vogais como “i” ou “u” (é duro de cantar). Veja se as frases não dificultam
a respiração do vocal entre as frases. Enfim, ouça a letra da música com
ouvidos críticos. E se não gostar de algo, corrija.
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