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É uma revista virtual cristã, para a qual escrevo, e que dirijo. Será um prazer te-lo como visitante e assinante (é gratuita) 

 
 


Projeto CD 'Diário de Bordo'
(antigamente indicado como projeto XXXXX)

Vinhedo, 21/8/05

1) Quês e Porquês

Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim

que perguntar carece: ‘Como não fui eu que fiz?’
(Milton Nascimento/Tunai)

Isso me desafia: a possibilidade de nosso sentimento íntimo encontrar parceiros  por aí, gente que não conhecemos mas que passa a se sentir próxima por um sentimento comum expresso em nossa poesia, levado por aí por uma linha melódica que faz jus ao que queremos dizer. Gente que faz das nossas palavras as suas. Gente que nos chama de amigo só pelo fato de termos sabido, ainda que inconscientemente, expressar em verbos e melodia o que lhes ia no coração.

Tenho vivido isso como nunca nos últimos 3 ou 4 anos. Sigo sendo mudado por Deus conforme o plano que Ele há muito projetou para mim, e tenho aprendido a deixar um pouco a frieza da razão e investir no e curtir um pouco mais o coração. A deixar um pouco as coisas para notar as pessoas. Tenho aprendido muitas coisas, que vou registrando em letras de música, artigos, e vou publicando, espalhando, gravando. E os resultados (esqueça os financeiros, falo dos ministeriais) tem sido mais do que animadores.

Algumas das lições e decorrências que hoje traduzo como valores pessoais são:

a) o conteúdo sempre fala alto que a forma. Apesar de termos hoje recursos que permitem que desafinados cantem no tom, que ruins virem razoáveis, é um engano pensar que tecnologia é o que o público procura. Estão aí milhares de cantores e grupos, cortejados pelos muitos estúdios, gravando seus CDs. Mas tecnologia nenhuma resolve o problema da falta de assunto. Uma forma ruim pode prejudicar uma boa mensagem, mas uma boa forma não compensa falta de conteúdo.

Falando de música cristã, é fácil ver um mar de canções dizendo sempre a mesma coisa - verdadeiros mantras - falando sobre Deus – é certo - sobre sua santidade, sua grandeza, de como o amamos, de como o adoramos, de como nos prostramos. Mas curiosamente canções assim, quando cantadas no ouvido de aflitos, só fazem reforçar um conceito errado de que Deus, de tão perfeito, seja talvez inatingível, intocável. Tanto que muitos chegam a dizer que Deus os esqueceu, explicação que encontram para a existência de tantos problemas em suas vidas, quando comparados à glória e vitória ensejadas em canções ufanistas, que falam de um paraíso shangrilá que lhes parece e é tão distante. Há muita gente querendo fazer música cristã. Mas a maioria esquece que o adjetivo ‘cristã’ só vem de uma música feita por um verdadeiro cristão, que só existe se há uma relação aprofundada com Cristo. Sem essa relação, é mesmo pra sobrar clichê e faltar assunto.

b) falar o idioma certo ajuda. Religionês castiço é difícil. Só os iniciados o decodificam. Nós e o povo das ruas vivemos no mundo real, falando a linguagem das ruas, das filas de banco. Se nossas canções usam e abusam dos termos religiosos, se seguimos usando somente ‘rei dos reis’, ‘senhor dos senhores’, ‘senhor dos exércitos’, ‘jeová-jireh’, ‘aleluias’, etc... a quem vamos atingir? Só quem decodifica tal linguagem.  Você, ao chamar um amigo para um churrasco, sábado em sua casa, ‘clamaria a ele para que juntos tabernaculassem em torno do pão, no dia que o Senhor deu?’ Ou, ao invés de dizer ‘que legal!’ diria ‘oh, quão bom é!’? Não? Por que então o fazemos na igreja? Como esperar que os “não-iniciados”  sintam-se convidados a participar? Eles não conhecem o código!!! Uma música cuja letra fala das coisas do dia a dia, no idioma das ruas, atinge o homem em seus pontos mais íntimos, e lhe apresenta a imagem de um Deus ‘logo aqui’, real, palpável, vivo, que se importa com as pequenas coisas de nossa vida.

c) ter contexto, assunto pertinente. De que adianta falar, ainda que na linguagem certa, de um assunto que não interessa a ninguém? Canções que falam dos problemas reais das pessoas, e propõem a realidade bíblica aplicável são sempre bem recebidas e são úteis. E como saber (e acima de tudo entender) quais são estes problemas? Só mesmo fazendo laboratório. Vivendo em contato com as pessoas, conhecendo seus problemas, até sofrendo junto com elas. Por esta razão, penso eu, o envolvimento dos autores das músicas em alguma atividade pastoral, de aconselhamento, de ensino, ou qualquer outra atividade que os coloque ‘no olho do furacão’ é positiva, é praticamente mandatória e é garantia de assunto.

d) ministério com música, não música como ministério – que me perdoem os que tem na música a profissão, mas minha experiência tem sido a de usar a música como ferramenta, não como produto final, embora pareça. A música, sua letra, seu arranjo, sua instrumentalidade é e deve ser boa, excelente, mas não deve tomar o lugar da coisa melhor: tocar vidas em nome de Cristo e convidá-las a uma relação com  ele.

e) pés no chão, coração no céu – uma música que encontra gente que com ela concorda nasce de um contexto pertinente. Fala uma língua compreensível. E propõe soluções para o mundo real, para o homem real, não para anjos e seres celestiais. Nada como uma música que possa ser cantada e reproduzida no CD dos carros na segunda, na terça, na quarta-feira, e dela poder se dizer: ‘é... concordo! Isso é pra hoje! Preciso lembrar disso na reunião de logo mais’.

Existem os que gostam de fazer uma música que agrade o coração de Deus. Concordo com eles. Também gosto e busco fazer tais canções. Mas já aprendí que para Deus pouco importa o que estou cantando para Ele, pois Ele não se relaciona com a minha música, mas comigo. E sei que Lhe é agradável meu coração afinado com o Dele. Por isso faço músicas que busquem levar Deus aos que não O conhecem ainda.

Uma música com os pés no chão pode transformar vidas, agradando a Deus, e fazendo com que estas vidas também agradem a Deus. Pés no chão, coração no céu.


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