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Pra quem não lembra, Gilberto Gil lançou, em
1980, uma música intitulada "Se eu quiser falar com Deus".
Extraído do livro: "Gilberto Gil - Todas as Letras", Cia. das Letras - Ed.
Schwarcz, editado em 1996, organizado por Carlos Rennó, veja a letra
da música e o seguinte comentário do próprio Gil:
"O Roberto (Carlos)
me pediu uma canção: do que eu vou falar? Ele é tão religioso - e se
eu quiser falar com Deus? E se eu quiser falar de falar com Deus? Com esses
pensamentos e inquirições feitas durante uma sesta, dei início a uma
exaustiva numeração:
se eu quiser falar com Deus tenho que isso, tenho que aquilo, que aquilo
outro. E saí. À noite voltei e organizei as frases em três estrofes.
O que chegou a mim como tendo sido a reação dele, Roberto Carlos, foi que
ele disse que não era a idéia de Deus que ele tem. Alí, a configuração não é
a de um deus nítido, com um perfil claro, definido. A canção (mais
filosófica, nesse sentido, do que religiosa) não é necessariamente sobre um
deus, mas sobre a realidade última: o vazio de Deus - o vazio-Deus."
Eis a letra da música do Gil:
"Se eu quiser falar com
Deus tenho que ficar a sós
tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz
tenho que encontrar a paz, tenho que folgar os nós
dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios,
tenho que esquecer a data, tenho que perder a conta
tenho que ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nús
Se eu quiser falar com Deus tenho que aceitar a dor
tenho que comer o pão que o diabo amassou
tenho que virar um cão, tenho que lamber o chão
dos palácios, dos castelos suntuosos do meu sonho
tenho que me ver tristonho, tenho que me achar medonho
e apesar de um mal tamanho alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar
tenho que subir aos céus sem cordas pra segurar
tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar
decidido pela estrada que ao findar vai dar em nada,
nada, nada, nada, nada,
nada, nada, nada, nada,
nada, nada, nada, nada,
do que eu pensava encontrar"
Francamente, confesso que sempre sofrí com esta música do Gil. Primeiro,
obviamente, por conta da letra. Eu já conhecia pessoalmente a Deus, me
relacionava com Ele, quando a música apareceu nas rádios. Não podia entender
como alguém desejava apresentar o Deus pessoal que eu conhecia naquela
imagem disforme de qualquer coisa, menos o verdadeiro Deus
Mas, em segundo lugar, sofria porque gostava (e continuo gostando) da
melodia e da harmonia. De um lado eu queria aprender a tocá-la. De outro,
queria esquecer dela.
A verdade é que isso me incomodou até o dia em que veio a idéia de fazer uma
resposta. A idéia ficou no estaleiro até 90, quando a caminho de uma
programação na zona leste de SP, saiu o que faltava da letra.
Tal qual foi gravada, e tal qual foi enviada ao próprio Gil, em 1997.
Jamais recebí qualquer resposta dele. |
Se eu quiser falar a um simples deus qualquer
desses que a mente sempre vai criar
desses que aos milhares vem se ofertar
sujo espelho de quem quis ser, mas não será
nobre amigo, tenho então de concordar
com tuas notas, teus acordes, o teu triste cantar
dura estrada, trilha errada,
longa saga de alta paga
que ao fim dá mesmo em nada, nada, nada, nada, nada
nada...
Mas se eu for falar com nada mais que Deus
não preciso nem sequer me concentrar
nem de longe tenho que me concentrar
Sua voz me fala antes que eu venha a falar
nobre amigo, nem sequer O procurei
fui achado, resgatado, me bastou que escutei
e Ele é a vida desejada,
mais que achada, ofertada,
Ele é tudo, tudo em mim,
Ele é tudo, tudo em mim,
nada, nada, nada, nada,Ele é tudo, tudo em mim
Muitas vezes já falei com Deus |